11 Agosto, 2025
Num universo onde os fenómenos virais surgem e desaparecem ao ritmo de um scroll, poucos conseguiram o impacto recente dos Labubus. Esta figura, nascida de forma aparentemente inocente, transformou-se num verdadeiro fenómeno global. Não só pelo traço visual e expressividade fora do comum, mas pela velocidade com que foi adotada pelo público de várias idades.
Tratam-se de brinquedos, com olhos expressivos, cara de boneca, orelhas de coelho e dentes pontiagudos, que tomaram conta das redes sociais, da moda e do colecionismo. Aparecem em vídeos, memes e stickers, fazem parte dos acessórios de moda de vários famosos e acabaram por se tornar, para alguns, itens de colecionador e ícones da atualidade.
Invadiram timelines, merchandising não oficial, avatares e até grafitis urbanos.
Com o crescimento do fenómeno veio a “inevitável” consequência: as imitações. Surgiram versões alternativas dos Labubus, com pequenas variações de cor, forma ou expressão. Estas cópias, por vezes feitas por fãs, outras criadas industrialmente com intenções comerciais, começaram a inundar o mercado. Rapidamente, a internet atribuiu-lhes um nome: Lafufus.
Os Lafufus são vistos por muitos como homenagens, mas também como cópias descaradas. Alguns utilizadores acharam piada ao facto de existirem “duas equipas”: os que preferiam o estilo original dos Labubus e os que achavam os Lafufus mais interessantes ou mais absurdos. Mas, para o criador original de Labubus, não se tratava de uma discussão sobre estilo. Era uma questão de propriedade.
É aqui que entra o ponto-chave da estratégia de proteção da marca: o criador original dos Labubus, depois de ver a proliferação das cópias, decidiu avançar com o pedido de registo da marca Lafufus. Não se trata apenas de proteger o que é seu (Labubus), mas também de reclamar território sobre aquilo que nasceu da imitação.
Este pode parecer um movimento estranho à primeira vista. Por que razão alguém tentaria registar um nome que, à partida, surgiu como uma versão contrafeita do seu próprio trabalho?
A resposta é simples: estratégia, controlo e antecipação.
Ao pedir o registo da marca Lafufus, o criador original está, na prática, a tentar dominar toda a narrativa visual e conceptual do universo que nasceu a partir dos Labubus. Está a dizer: “mesmo as cópias estão dentro do meu domínio.”
Este tipo de estratégia não é nova. Grandes marcas já o fizeram no passado. Pensemos, por exemplo, em marcas que registam grafismos ou slogans que os consumidores associam a concorrentes ou a movimentos paralelos, apenas para impedir que esses elementos ganhem vida própria fora do seu controlo.
Com este gesto, o criador original também está a salvaguardar futuros direitos de exploração comercial. Senão vejamos: imaginemos que os Lafufus se tornam uma série, outra coleção de brinquedos, ou até mesmo parte de uma linha de roupa. Quem tiver o registo da marca terá um poder contratual significativo. Quer para autorizar esses usos, quer para os bloquear.
Pedir o registo do nome Lafufu gerou reações imediatas online. Uns aplaudiram o movimento como um “checkmate” estratégico, aplaudindo a visão do criador por conseguir transformar uma ameaça (as imitações) numa oportunidade legal e comercial.
Outros acusaram-no de “corporativizar” a cultura da internet que, por natureza, pode ser caótica, anárquica e feita de colagens, cópias e derivações. Para estes críticos, registar Lafufus seria tentar colocar uma cerca num campo aberto.
Há também quem veja ironia no gesto. Segundos estes últimos, os Labubus não tiveram uma origem completamente clara e muitos apontam que o próprio criador bebe de estilos que já circulavam anteriormente.
Este caso é um excelente exemplo de como os direitos de PI deixaram de ser apenas ferramentas usadas por empresas tradicionais ou marcas de consumo.
A velocidade da internet não impede, nem substitui, a importância da proteção legal. Pelo contrário. O registo de marcas, domínios, direitos de autor e desenhos ou modelos passou a ser uma componente essencial na gestão de qualquer negócio.
Fenómenos como este dos Labubus & Lafufus mostram que a fronteira entre o viral e o comercial é cada vez mais ténue e que o registo de marca pode ser tanto uma rede de proteção como uma jogada ofensiva.
Este caso é um exemplo real de como os fenómenos virais já não são apenas um entretenimento passageiro. São também ativos, oportunidades e, acima de tudo, território legal.
O criador de Labubus percebeu-o antes de muitos outros. Ao pedir o registo do nome Lafufus, não está apenas a tentar proteger a sua criação. Está a combater a contrafação, como se colocasse uma bandeira em todo o campo de batalha, mesmo nos cantos que pareciam não lhe pertencer.
Neste novo mundo, quem cria precisa de mais do que talento. Precisa de visão. E quem imita pode, inadvertidamente, abrir portas a quem sabe como jogar o jogo.